Filando a bóia
Como quem não quer nada, eles aparecem bem na hora do almoço ou do jantar


Fonte: Revista Veja São Paulo
Data: 25 de setembro de 2002
Autor: Walcyr Carrasco



Quem gosta de antiguidades sabe muito bem. Muitas mesas de jantar do passado tinham uma gaveta correspondente a cada lugar. Serviam para esconder a comida de visitas inoportunas! A família toda estava jantando. Ouvia-se bater na porta. Alguém olhava pela janela. Dava o alarme.
– É ele!
Toca a esconder os pratos na gaveta. O jantar desaparecia. Todo mundo ficava sentado, disfarçando. O comilão entrava, ávido para filar a bóia. Aspirava o cheirinho.
– Daqui a pouco servem – pensava.
Conversa vem, conversa vai. Nada! Saía um cafezinho. A visita fugia. Todos abriam as gavetas e terminavam a refeição, calmamente.
Tive um tio especialista. Vendedor, corria a cidade inteira. Na hora do almoço, avaliava a distância até o parente mais próximo. Tinha instinto. Chegava no instante em que mamãe botava os pratos na mesa. Qualquer dona-de-casa sofre com isso. Quer oferecer uma coisinha melhor para a visita. Ou estar mais arrumada. O comilão conhece a natureza humana. Se telefonar, corre o risco de ouvir desculpa. Melhor chegar como quem não quer nada.
– Estava passando aqui por perto, resolvi ver como vocês estão.
Mal fala, já vai se acomodando na mesa.
Brasileiro gosta de oferecer hospitalidade. Quem morou no exterior sabe. Aparecer na hora da refeição é gafe. E também inútil. Uma amiga, estudante e sem grana, tentou o golpe no interior da França. Foi abandonada no sofá. Ao fim do jantar, cada membro ainda pegou seu fio dental e passou na boca. Generosamente, a dona da casa ofereceu:
– Aceita um pedaço de fio dental?
Como não tinham ofertado nem as coxinhas de frango nem a torta de maçã, minha amiga declinou da gentileza. Fio dental para quê?
Quando era novinho, trabalhei em pesquisa de mercado. Tentei a estratégia. Sempre me dei mal. O motivo foram as regras de cortesia ensinadas por minha mãe.
– Se oferecerem alguma coisa, não aceite.
Só devia aceitar depois de muita insistência. O problema era que ninguém insistia! Chegava em casa de conhecidos ou de parentes distantes. Sentava, já sentindo o aroma do macarrão, do bife acebolado. Engolia em seco. A dona da casa cravava o olhar na minha cara-de-pau. Eu fingia não ver. Às vezes, demoravam um pouco conversando, na esperança de que eu fosse embora. Finalmente, vinha o convite.
– Aceita almoçar com a gente?
Eu tentava ser educado:
– Não, não se incomodem.
Em vez de insistir, todos se levantavam apressadamente. Corriam para a mesa. Eu ficava com o estômago rosnando e dizendo a mim mesmo:
– Asno, asno!
Ultimamente, tenho tentado a estratégia com minha amiga Lalá. Chego e recebo dois beijinhos.
– Que saudade!
Aguardo. Quando os dois estão prestes a desmaiar de fome, ela vai para a cozinha. Dali a pouco aparece com uma saladeira repleta de folhas verdes.
– Fiz uma salada para a gente.
Sento. Como a salada, pensando que é entrada. Ela sai e... volta com o café! Quase morro de susto. Antes que eu abra a boca, ela explica:
– Estou de regime!
E pronto, acabou-se o jantar! Vôo para a pizzaria mais próxima. Acreditaria totalmente na frugalidade da salada se a malvada emagrecesse. Só engorda. Deve ter um pernil escondido no forno, para devorar assim que eu saia! Não é o único caso. Nos últimos tempos, já me ofereceram canja leve de galinha e queijo de soja como jantar!
Acabaram-se as gavetas na mesa. A desculpa do regime tornou-se mais efetiva! A tradição de filar bóia está chegando ao fim. Seja dita a verdade. Comilões fora de hora, ou melhor, sempre na hora exata até que tinham um certo charme!

Fonte: Revista Veja São Paulo
Data: 25 de setembro de 2002
Autor: Walcyr Carrasco

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